16
Acerca de credores e devedores
Que é o dinheiro?
Rustidion énperdoado de sua dívida para com a Arca
Naronda: Certo dia, quando nós sete e o Mestre estávamos voltando do Ninho da Águia para a Arca, vimos Shamadam ao portão, agitando um documento que tinha na mão, diante de um homem que se achava prostado a seus pés. Dizia Shamadam, bastante zangado: "Teu delito esgota minha paciência, não posso mais ser tolerante. Ou pagas já, ou irás apodrecer na prisão!"
Reconhemos o homem como sendo Rustidion, um dos arrendatários da Arca, que se achava em débito de certa soma de dinheiro para com esta. Esfarrapado e envelhecido, suplicava ao Superior que lhe desse prazo para pagar os juros, dizendo que uma só semana havia perdido o único filho e a única vaca que possuía, em consequência do quê sua velha esposa havia sido acometida de paralisia. O coração de Shamadam, porém, não se enternecia.
O Mestre foi ap encontro de Rustidion e, tomando-o delicadamente pelo braço disse:
Mirdad: Levanta-te, meu Rustidion. Tu és também imagem de Deus, e a imagem de Deus não deve curvar-se diante de sombra alguma. (E voltando-se para Shamadam) Mostra-me o título da dívida.
Naronda: Shamadam, que havia um momento estava furioso, para espanto de todos tornou-se mais manso que um cordeiro e, humildemente, passou ao Mestre o papel que tinha na mão. O Mestre examinou com todo o cuidado o documento, enquanto Shamadam olhava-o calado, como se estivesse sob a ação de um encantamento.
Mirdad: Não era onzenário o fundador desta Arca. Por acaso ele te legou dinheiro que devesse emprestar com usura, ou terras para alugar a um preço de usura? Deixou-te ele por herança o suor e o sangue de teu irmão, ordenando-te que lançasses à prisão aqueles cujo sangue tivesses recolhido até não haver mais cujo saangue tivesses sugado até a última gota?
Uma arca, um altar e uma luz foi o que ele te deixou em herança - nada mais. Uma arca, que é seu corpo-vivo; um altar, que é seu destemido coração; uma luz, que é sua fé ardente. Estas coisas ele ordenou-te que as conservasses intactas e puras, em um mundo que baila ao som das flautas da morte e se espoja no lamaçal da iniquidade devido a sua falta de fé.
Para que os cuidados do corpo não vos distraíssem o espírito, foi-vos permitido viver da caridade dos fiéis, e nunca, desde que a Arca foi lançada, houve falta de caridade.
Mas, ai! Essa caridade tu agora a transformaste em maldição, para ti e para os caridosos, pois com suas doações, tu subjugas os doadores. Tu enforca-os com as cordas que fiaram para ti. Tu desnuda-os das roupas que teceram para ti. Tu mata-os de fome peli pão que para ti assaram. Tu constróis prisões para eles com as pedras que para ti cortaram e aparelharam. Para eles tu fazes jugos e esquifes com a madeira que cortaram para te aqueceres. Empreta-lhes, com usura, seu próprio suor e seu próprio sangue do homem, cunhado em moedas com as quais se acorrenta o próprio homem? Que é a riqueza senão o suor e o sangue do homem, armazenado por aqueles que suam e sangram o mínimo, para moer as costas daqueles que suam e sangram o máximo?
Malditos - mais uma vez, malditos - sejam os queimam a mente e o coração e assassinam seus dias e suas noites para acumular riquezas, pois não sabem o que estão acumulando!
O suor das prostitutas e dos ladrões; o suor dos turbeculosos, dos leprosos e dos paralíticos; o suor dos cegos, dos coxos e dos aleijados; o suor do arador e de seu boi, do segador e do que fez a colheita - de todos estes e de muitos mais - eis o que armazena o acumulador de riquezas!
O sangue do orfão e do velhaco; do déspota e do mártir; do peverso e do justo; do que rouba e do que é roubado; do executor e do que é executado; o sangue dos exploradores e trapaceiros e daqueles que são explorados e ludibriados - o sangue de todos estes e de muitos mais, eis o que armazenam os que acumulam riquezas!
Sim, malditos - mais uma vez, malditos - sejam aqueles cuja riqueza e cujo capital nos negócios é o suor e o sangue dos homens! Suor e sangue será, finalmente, seu preço. Terrível será o preço, e apavorante o ajuste de contas.
Emprestar, e emprestar a juros! Realmente é ingratidão, excessivamente descarada, para que se possa desculpar.
Que tens tu para emprestar? Não é tua própria vida um presente? Se Deus quisesse cobrar juros pelo mais ínfimo dos presentes que te deu, onde irias buscar com que pagá-los?
Não é este mundo um tesouro comum, onde cada coisa e cada homem deposita tudo o que possui para a manutenção de todos?
Por acaso a calhandra te empresta seu canto, ou a fonte a água que dela jorra?
E o carvalho empresta sua sombra, pu a tamareira suas dulcíssimas tâmaras?
Empresta o carneiro sua lã, e a vaca seu leite, a juros?
E as nuvens, vendem-te a chuva, ou o sol, seu calor e sua luz?
Que seria de tua vida sem estas coisas e milhares de outras?
E qual dentre vós pode dizer quem depositou o máximo e quem confiou o mínimo, na tesouraria do mundo?
Podes tu, Shamadam, calcular quais foram as contribuições de Rustidion para a tesouraria da Arca? Emprestas-lhe suas próprias contribuições - talvez uma parte ínfima delas - e cobrars-lhe juros escorchantes. Agora, queres fazê-lo apodrecer na prisão?
Quais os juros que exiges de Rustidion? Não vês como teu empréstimo foi lucrativo? Que melhor pagamento queres do que um filho morto, uma vaca morta e uma esposa paralítica? Que melhores juros exigir do que os andrajos que lhes cobrem o corpo curvado?
Esfrega os olhos, Shamadam. Desperta, antes que te seja exigido, também, que pagues tuas dívidas com juros e, não podendo fazê-lo, sejas mandado apodrecer na prisão.
O mesmo digo a vós, companheiros. Esfregai os olhos e despertai.
Dai quando puderdes e tudo o que puderdes, mas jamais empresteis, senão tudo o que tiverdes, inclusive vossa vida, tornar-se-á um empréstimo, e um empréstimo vencido. Sereis considerados insolventes e lançados à prisão.
Naronda: O Mestre olhou então novamente para o documento que tinha nas mãos e o fez em pedaços, os quais lançou ao vento. Voltando-se então para Himbal, que era o tesoureiro, disse-lhe:
Murdad: Dá a Rustidion o necessário para comprar duas vacas e cuidar de sua esposa e de si próprio até o fim de seus dias.
E tu, Ruatidion, vai em paz. Tua dívida está resgatada. Toma cuidado para jamais te tornares credor, pois o débito de quem empresta é muito mais pesado do que daquele que toma emprestado.